Integração Curricular das TIC

“O acesso a grandes quantidades de informação não assegura a possibilidade de o transformar em conhecimento. O conhecimento não viaja pela Internet. Construí-lo é uma tarefa complexa, para a qual não basta criar condições de acesso à informação. Hoje, para poder extrair informação útil do crescente oceano de dados acessíveis na Internet, exige-se um conhecimento básico do tema investigado, assim como estratégias e referenciais que permitam identificar quais fontes são fiáveis. Por outro lado, não devemos esquecer que, para transformar a informação em conhecimento, exige-se – mais do que qualquer outra coisa –pensamento lógico, raciocínio e juízo crítico.”

(Martínez, 2004, pg. 97)

Da sociedade da informação à sociedade do conhecimento

Nos últimos anos, a Escola deixou de ser o principal meio de informação para as novas gerações e passou a concorrer com outros meios como a televisão e a Internet. No entanto, é preciso ter presente que informação e conhecimento não são exactamente a mesma coisa. O conhecimento implica sempre informação, mas a acessibilidade à informação nem sempre implica a construção de conhecimento.

Desde a invenção da escrita e durante séculos, a informação sempre foi escassa e de difícil acesso. A parte mais valiosa e interessante da informação estava disponível em textos que só eram acessíveis a uma minoria. Com a invenção da imprensa deu-se uma revolução sendo possível registar e reproduzir textos facilmente. Mas a massificação de livros e as revistas demorou muito tempo e só nas últimas décadas se concretizou. Além disso, é preciso não esquecer que até ao início do século XIX, os níveis de analfabetismo eram muitíssimo altos no mundo inteiro. Hoje a quantidade de informação disponível e acessível é completamente diferente. É cada vez mais abundante e fácil de obter, por exemplo, através da Internet.

Como refere José Joaquín Brunner, o actual problema da Educação “não é onde encontrar a informação, mas como oferecer acesso a ela sem exclusões e, ao mesmo tempo, aprender e ensinar a seleccioná-la, avaliá-la, interpretá-la, classificá-la e usá-la” (2004, pp. 24-25).

O mesmo autor sublinha que relativamente ao conhecimento, “elemento central do capital cultural produzido pela escola”, também ocorreram grandes alterações. Até há pouco tempo atrás, “a missão de inculcar conhecimentos era favorecida pelo facto de a plataforma global do conhecimento e as bases do conhecimento disciplinar serem relativamente reduzidas e estáveis, o que facilitava o trabalho da escola” (Idem). Em contrapartida, nos nossos dias, o conhecimento aumenta e é alterado com grande velocidade.

Daí um novo desafio que se coloca à Escola é a necessidade de desenvolver nos alunos “funções cognitivas superiores (…) indispensáveis num meio saturado de informação, evitando que o ensino fique reduzido ao nível das destrezas elementares” (Idem, p. 25).

Como referem Wenger e colegas, a Escola deve oferecer a aprendizagem como a chave para o mundo – como a chave para um infinito número de formas de ser e de participar no mundo. Deve construir diversidade e criar diversidade.

O desejável não é que os alunos saiam da escola com um saber enciclopédico uniforme. Pretende-se que os alunos deixem a escola e possuam conhecimentos, mas também possuam auto-controlo, tenham capacidade de resolução de problemas, de planeamento, de reflexão, sejam criativos e tenham capacidades de compreensão e de comunicação com os seus pares e de adaptação a um mundo em constante evolução.

O papel das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na Escola

“Mais que um guia imensamente permissivo que articula cada um a todos os outros, a rede apela para um jogo infinito de combinatórias, para a participação activa – interactiva – do navegador. Ela permite por isso, não apenas ‘viajar’ nos mundos já conhecidos, como ‘navegar’ nos mundos por descobrir.”

(Olga Pombo In O Hipertexto como Limite da Ideia de Enciclopédia, p. 23)

Como refere Daniel Firmus (2004), o tipo de saber que predomina na Escola actual ainda é atomizado, enciclopédico e baseado na memorização. Está desvinculado da realidade. É baseado em dados, datas e fórmulas que servem para passar nos exames, cuja principal função é darem acesso a novos exames. Enquanto que este tipo de saber tinha razão de existir no contexto das relações sociais e de trabalho que predominavam há mais de um século e que convergiam para a preparação dos alunos para um mundo relativamente estável, hoje em dia revela-se inadequado.

A rapidez com que a Ciência evolui e a Tecnologia se torna obsoleta, o desaparecimento de profissões e postos de trabalho vitalícios obrigam a pensar na necessidade de formar cidadãos com capacidade permanente de se actualizarem e de se adaptarem às mudanças que irão pautar as suas vidas. A Escola mais do que ensinar conteúdos específicos deverá “ensinar a aprender” e gerar uma atitude positiva face à mudança contínua e à formação ao longo da vida

Neste contexto, a importância do papel que assume o domínio das TIC é inquestionável. São inúmeras as justificações para o seu uso na Escola. Brunner (2004) aponta algumas delas:

* capacitar os alunos para a utilização de instrumentos que já estão a ser utilizados na sociedade e que no futuro se espera que venham a ter um impacto ainda maior (no trabalho, no lar e nas comunicações);
* aumentar a motivação dos alunos, melhorar as suas capacidades de pensamento lógico e numérico, desenvolver as suas capacidades de aprendizagem autónoma e de criatividade, e favorecer atitudes mais positivas em relação à ciência e à tecnologia, assim como uma maior auto-estima por meio do domínio das tecnologias;
* fornecer a professores e alunos um meio que poderá conectá-los com uma fonte quase inesgotável de informação e dar-lhes acesso a um enorme arquivo de conhecimento;
* incrementar a eficiência da gestão escolar e aumentar a potência e a intensidade dos processos de ensino aprendizagem;
* facilitar uma comunicação dos professores com as famílias dos alunos e ajudar a estreitar laços com a comunidade;
* diminuir a brecha digital existente entre os alunos de famílias com maior poder aquisitivo (que têm acesso à utilização dos meios informáticos em casa, em colégios particulares…) e os alunos de famílias mais desfavorecidas.

No entanto, é indispensável acentuar que a utilização das TIC na Escola não é sinónimo de domínio de instrumentos tecnológicos. Pode ter consequências profundas na própria transformação da Escola e na forma como se processa a construção do conhecimento pelos indivíduos.

“A questão não se resume à técnica pela técnica nem ao acréscimo epidérmico de técnicas. A educação escolar é um todo tradicional, apoiado nos seus pilares tradicionais. Dessa forma, a tecnologia não é um adorno ou adendo superficial que se possa incrustar no velho prédio sem que outras partes sejam afectadas. Voltada para a continuidade das gerações, não por acaso a educação escolar apresenta consistente unidade e intensas forças coesivas em que uma componente afecta o outro. Assim, as novas tecnologias da informação e de comunicação alteram sensivelmente as relações entre os actores e entre os componentes do sistema. Não se trata de mudanças fáceis e rápidas, mas de alterações que se referem aos próprios apoios fundamentais da edificação.”

(Wertheim, 2004, p. 8)

Por outro lado, de modo nenhum se pode pensar que as tecnologias são milagrosas e que por si só vão transformar a Escola. Wertheim alerta-nos simultaneamente para o optimismo e pessimismo pedagógico, salientando que “nem os sistemas educacionais se caracterizam por unidades inabaláveis, em que as mudanças são impossíveis, nem se caracterizam como terrenos de superficialidade, onde as tecnologias possam fazer o milagre da mudança rápida e, de preferência, indolor” (2004, p. 8).

* Que factores estarão na base de uma utilização dos computadores profícua e impulsionadora do sucesso educativo dos alunos?

* Como perspectivar o papel das TIC na Escola? De que forma a educação crítica para a utilização das tecnologias pode fazer a diferença na preparação de jovens para a sociedade onde vivem e irão viver quando forem adultos?

5 comentários

Filed under Formação

5 responses to “Integração Curricular das TIC

  1. Armanda Oliveira Maia

    É de extrema importância que o docente se aproprie das ferramentas tecnológicas que lhe são disponibilizadas.Tenha uma mente aberta para pensar que estas não são milagrosas mas depende de si saber utilizá-las e retabilizá-las no processo ensino/aprendizagem.
    As novas tecnologias não podem substituir o professor. Podem aproximá-lo dos seus discentes, da comunidade educativa chegando rapidamente ao extrema do nosso planeta. É muito importante ser eficiente na sua gestão e sobretudo pensar que o conhecimento se encontra em constante evolução. O que hoje é verdade pode ser posto em causa amanhã. As novas tecnologias são uma chave mestre desta evolução.

    Armanda oliveira Maia

    Maria da Conceição Duarte Chaves

    Regiona Ramos

  2. Sónia Cruzeiro e Ana Neves

    As TIC devem consistir num instrumento de aprendizagem das diferentes áreas curriculares. Do nosso ponto de vista, não devem ser perspectivadas como uma área curricular específica, onde o aluno aprende apenas a utilização dos diferentes programas. Esta aprendizagem deve decorrer complementarmente às aprendizagens das diferentes disciplinas.
    Isso implica a necessidade de recursos suficientes – um computador por aluno, acesso à Internet – em que o aluno funcione como o agente de descobertas e aprendizagens.
    É neste percurso, orientado pelo professor mas ao ritmo de cada aluno, que as aprendizagens serão construídas – as técnicas e as curriculares; as de visão crítica do mundo e as de formação cívica. Estas últimas são fundamentais para que o aluno utilize, adequadamente, estes recursos.

  3. Mónica, Patricia, Maria José

    Actualmente a utilização das TIC é cada vez mais importante. As nossas crianças vivem já num mundo informático, cabendo a nós educadores contribuir na orientação da sua utilização, preparando-as para um futuro que se adivinha ainda mais tecnológico. Relembre-se que esta ferramenta é um dos meios privilegiados para o trabalho a realizar no âmbito da Educação Especial e ser possivel a comunicação e ensino/ aprendizagem. As Tic são sem dúvida uma mais-valia para o sucesso educativo dos nossos alunos permitindo e facilitando a integração plena na nossa sociedade.

  4. isabel2

    Nos dias de hoje e impensável viver sem computador, sobretudo na investigação, no ensino, no nosso dia a dia, na partilha de conhecimentos e experiências com os amigos e colegas.
    Como referia o texto, era impensável à 20 anos atrás obter tanta informação como nos dias actuais. É importantíssimo o saber lidar com estas novas tecnologias dentro da sala de aula, para não nos deixarmos ultrapassar pelos alunos, pois estes têm muita facilidade em manipular um computador e tudo o que este nos proporciona.
    A Internet é um meio de sociabilização entre os jovens de hoje, atraves das redes sociais.
    Agora cabe ao professor incutir-lhes a importância do saber filtrar toda a informação que ai podem obter.
    Na sala de aula, é muito motivador trabalhar com estas novas tecnologias, facilitando assim na obtenção de novos conhecimentos, pois já está ultrapassado o velho manual, sempre com as mesmas imagens, os mesmos conteúdos.
    A internet facilita-nos assim o trabalho na sala de aula tornando-as mais atractivas, mais motivadoras.

  5. Mafalda, Patrícia e Sameiro

    Como fatores primordiais/iniciais referiríamos os recursos humanos e materiais. A formação dos professores nas TIC é essencial para que os mesmos se sintam “confortáveis” e com os conhecimentos necessários para trabalhar com os alunos, na sala de aula, principalmente, a nível pedagógico dado o nível etário dos alunos do 1º ciclo. É impossível utilizar as TIC com os alunos se as escolas/salas de aula não estiverem devidamente equipadas e não houver a necessária atualização e manutenção dos equipamentos. Acrescentaríamos o papel das famílias como importante complemento do trabalho desenvolvido na escola, de modo a valorizá-lo e a incentivar os seus educandos a uma aprendizagem cada vez mais autónoma e interessada. Só havendo um trabalho em equipa (escola/família) e os necessários recursos materiais se poderá utilizar os computadores, com vista a um maior sucesso educativo dos alunos.

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